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domingo, 25 de agosto de 2013

Eleições 2014: O pôquer tucano 'Aécio Neves & José Serra'

Nesta passada, Aécio Neves e José Serra defenderam prévias no PSDB. Trata-se de puro jogo de cena – eles travam uma guerra de bastidores pela candidatura à Presidência da República 

Poucos assuntos são tão adequados ao nosso “Teatro da Política” quanto a situação atual do PSDB. Nesta semana passada, o pré-candidato a presidente, Aécio Neves, disse que aceita participar de prévias contra o outro postulante à vaga, José Serra. Serra respondeu que topa disputar as prévias, desde que elas tenham “regras claras”. Puro teatro. Civilizados na ribalta, os dois duelam atrás da cortina. A contenda, encarniçada, se assemelha a um pôquer, em que os dois candidatos tentam esconder o jogo, enquanto ganham tempo para adivinhar as cartas do adversário.

A principal carta de Serra é ameaçar sair candidato por outro partido que não o PSDB. Sem o apoio dos diretórios regionais do partido, Serra correu atrás de outras siglas e já garantiu a legenda do PPS, se quiser concorrer no ano que vem. O PPS, porém, tem pouco tempo de TV. Por causa disso, Serra tenta o apoio do PSD, criado e comandado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab. Só com esses dois partidos, Serra já teria praticamente o mesmo tempo de TV de Aécio. Ele tenta atrair ainda PV e DEM.

Esse namoro com outras siglas não significa que Serra esteja decidido a sair do PSDB. Como bom jogador de pôquer, ele apenas reúne as melhores cartas antes de colocá-las na mesa. Serra imagina que um arco de apoios forte o ajude a pressionar Aécio a desistir de ser o candidato do PSDB, mesmo tendo o apoio dos diretórios regionais. Por uma razão simples: sem os outros partidos, ele iria às urnas para, provavelmente, perder. Aécio precisa dos apoios para formar seus palanques e conseguir tempo de televisão. Precisa também da união dos tucanos em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país – onde Serra já foi governador, senador e prefeito da capital.
 
 


Falta um par de ases para Serra pôr suas cartas na mesa. O primeiro é conseguir o apoio formal do PSD. Isso pode demorar, já que Gilberto Kassab está na base partidária de Dilma Rousseff, ainda que informalmente. É possível que Kassab dispute o governo de São Paulo, mas isso também traz um complicador para a estratégia de Serra. Nesse caso, Kassab enfrentaria, nas urnas, o governador Geraldo Alckmin, hoje o principal esteio político de Serra. A segunda tarefa de Serra é atrair o DEM, partido em que Aécio também tem bom trânsito. Tudo isso precisa ser feito até o final de setembro, quando, de acordo com a lei, termina o prazo para que um candidato mude de partido e possa concorrer em 2014.

Serra joga contra o relógio. Ele precisa fechar suas alianças rápido para ganhar a vaga no grito. Ao contrário do que diz, não pretende disputar eventuais prévias. Pois, em caso de derrota, ficaria estranho mudar de partido depois. Pareceria atitude de mau perdedor. Com o intuito de ganhar apoio, chegou a reunir, na quarta-feira passada, a bancada do PSDB em Brasília, sob o pretexto de falar sobre saúde, pasta que ocupou no governo Fernando Henrique. Para quem foi à conversa, ficou claro que Serra se preo­cupa com outro tipo de saúde – a de sua candidatura.

Se Serra joga contra o tempo, o primeiro ponto da estratégia de Aécio é deixar o tempo correr. Seu objetivo é jogar as prévias para depois de outubro. Enquanto isso, Aécio quer impedir que Serra comece a se fazer de “vítima”. A declaração da semana passada foi uma jogada inteligente. Com ela, Aécio tirou de Serra a oportunidade de dizer que saiu do PSDB por não ter tido chance de disputar prévias. Aécio e a cúpula do partido acham que as prévias são praticamente inviáveis. O PSDB nunca recorreu a elas. Não existe um regulamento previamente definido, e mais da metade dos diretórios nem sequer tem cadastro de filiados. Na ausência de regras claras, Serra pode reivindicar a consulta a todos os filiados do partido. Isso poderia favorecê-lo, já que ele saiu duas vezes à Presidência. Ou então, levaria tudo para o vinagre.

Caso as prévias saiam da condição de blefe para se tornar realidade, Aécio, presidente atual do PSDB, planeja usar sua força entre os diretórios regionais do partido para impor uma derrota expressiva a Serra. Um levantamento feito por ÉPOCA nos 27 diretórios estaduais do PSDB revela um apoio maciço a Aécio. Apenas três deles se declararam indecisos entre os dois. Os demais afirmaram apoiar a pré-candidatura de Aécio. “O partido inteiro está atrás de Aécio e alinhado com o senador. Não vamos agora discutir o sexo dos anjos”, diz o presidente do partido no Distrito Federal, Eduardo Jorge.

Vença Aécio ou vença Serra, o cenário provoca estragos no partido. Nas pesquisas internas do PSDB com o eleitorado nacional, o partido tem a imagem de sigla dividida – e isso é considerado negativo pelo eleitor. É consenso que o sucesso da candidatura de Aécio depende da união no maior Estado do país: São Paulo. “O povo já não está gostando nada de político, imagina de político brigando?”, diz um dos tucanos incumbidos de pacificar a sigla.

A visão da maioria dos presidentes de diretórios estaduais é que, num partido com tamanho histórico de desunião, prévias só aumentariam o ruído. “Sou contra as prévias. Porque penso que elas podem trazer um mal-estar. Sempre deixa um resquício”, diz o presidente do PSDB cearense, Luiz Pontes, aliado de Tasso Jereissati, um dos maiores entusiastas da campanha de Aécio. “Em Rondônia, não trabalhamos com hipótese de prévia. Isso só desgastaria o partido”, afirma o presidente estadual, Expedito Junior.

Essa divisão do PSDB aparece depois de um período em que o partido parecia pacificado. Em maio deste ano, quando Dilma Rousseff desfrutava altos índices de aprovação, o PSDB, num gesto raro em sua história, se uniu em torno da candidatura de Aécio ao Planalto em 2014. A pacificação foi selada na convenção que o colocou como presidente nacional dos tucanos naquele mesmo mês. O PSDB vivia em maio o que os políticos chamam de “paz de cemitério”. Diante do bom momento de Dilma e da possibilidade de uma nova derrota para o PT em 2014, Serra decidira concorrer ao Senado por São Paulo, deixando o caminho livre para Aécio.

A queda de popularidade de Dilma reacendeu o sonho presidencial de Serra e provocou uma nova divisão. Passada a euforia inicial, o cenário não se revela tão favorável. A popularidade que Dilma perdeu não foi para o PSDB, mas para Marina Silva – nas pesquisas com um cenário realista, Aécio atinge no máximo 13%, e Serra 15%. Num segundo momento, Dilma recuperou parte da popularidade. Isso trouxe um novo temor: uma possível desistência de Eduardo Campos. Se ele apoiar Dilma, diminui a possibilidade de segundo turno.

Enquanto a situação não se define, Aécio continua falando e agindo como candidato. “O PSDB tem um projeto para o Brasil, uma estratégia para isso e não vai alterá-la. Estamos organizando o partido nas redes, entre os movimentos sociais, entre os ambientalistas. O PSDB trabalha para ter um grande projeto para o Brasil em 2014”, disse Aécio a ÉPOCA. Ele começou a percorrer o país no último final de semana, pelo interior de São Paulo. Já tem outras quatro viagens agendadas pelo Brasil. Numa campanha eleitoral, pretende desmontar a imagem de gestora de Dilma. Como a economia vai mal, o objetivo é questionar seu talento para administrar. “O PAC tinha pai (Lula) e mãe (Dilma), agora que não anda, ficou órfão”, diz Aécio. Ele mostra uma disposição oposicionista rara entre tucanos. Mas, para enfrentar Dilma, tem de se dedicar antes a uma tarefa interna: ganhar de Serra no pôquer.

Fonte: ÉPOCA.com - Por Alberto Bombig, Leopoldo Mateus e Vinicius Gotczeski

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