
Luís Inácio Lula da Silva se considera um cidadão acima de qualquer
suspeita. Mais ainda: acha que paira sobre as leis e a Constituição.
Presume que pode fazer qualquer ato, sem ter que responder por suas
consequências. Simula ignorar as graves acusações que pesam sobre sua
longa passagem pela Presidência da República. Não gosta de perguntas que
considera incômodas. Conhecedor da política brasileira, sabe que os
limites do poder são muito elásticos. E espera que logo tudo caia no
esquecimento.
Como um moderno Pedro Malasartes vai se desviando dos escândalos.
Finge ser vítima dos seus opositores e, como um sujeito safo, nas sábias
palavras do ministro Marco Aurélio, ignora as gravíssimas acusações de
corrupção que pesam sobre o seu governo e que teriam contado, algumas
delas, com seu envolvimento direto. Exigindo impunidade para seus atos, o
ex-presidente ainda ameaça aqueles que apontam seus desvios éticos e as
improbidades administrativas. Não faltam acólitos para secundá-lo.
Afinal, a burra governamental parece infinita e sem qualquer controle.
Indiferente às turbulências, como numa comédia pastelão, Lula
continua representando o papel de guia genial dos povos. Recentemente,
teve a desfaçatez de ditar publicamente ordens ao prefeito paulistano
Fernando Haddad, que considerou a humilhação, por incrível que pareça,
uma homenagem.
Contudo, um espectro passou a rondar os dias e noites de Luís Inácio
Lula da Silva, o espectro da justiça. Quem confundiu impunidade com
licença eterna para cometer atos ilícitos, está, agora, numa sinuca de
bico. O vazamento do depoimento de Marcos Valério – sentenciado no
processo do mensalão a 40 anos de prisão - e as denúncias que pesam
sobre a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo,
Rosemary Noronha, deixam Lula contra a parede. O figurino de presidente
que nada sabe, o Forrest Gump tupiniquim, está desgastado.
No processo do mensalão Lula representou o papel do traído, que
desconhecia tratativas realizadas inclusive no Palácio do Planalto – o
relator Joaquim Barbosa chamou de "reuniões clandestinas" -; do mesmo
modo, nada viu de estranho quando, em 2002, o então Partido Liberal foi
comprado por 10 milhões, em uma reunião que contou com sua presença. Não
percebeu a relação entre o favorecimento na concessão para efetuar
operações de crédito consignado ao BMG, a posterior venda da carteira
para a Caixa Econômica Federal e o lucro milionário obtido pelo banco.
Também pressionou de todas as formas, para que, em abril de 2006, não
constasse do relatório final da CPMI dos Correios, as nebulosas relações
do seu filho, Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, e uma
empresa de telefonia.
No ano passado, ameaçou o ministro do Supremo Tribunal Federal,
Gilmar Mendes. Fez chantagem. Foi repelido. Temia o resultado do
julgamento do mensalão, pois sabia de tudo. Tinha sido, não custa
lembrar, o grande favorecido pelo esquema de assalto ao poder,
verdadeira tentativa de golpe de Estado. A resposta dos ministros do STF
foi efetuar um julgamento limpo, transparente, e a condenação do núcleo
político do esquema do mensalão, inclusive do chefe da quadrilha –
denominação dada pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel –
sentenciado também por corrupção ativa, o ex-ministro (e todo poderoso)
José Dirceu, a 10 anos e 10 meses de prisão. Para meio entendedor, meia
palavra basta.
As últimas denúncias reforçam seu desprezo pelo respeito as leis. Uma
delas demonstra como sempre agiu. Nomeou Rosemary Noronha para um cargo
de responsabilidade. Como é sabido, não havia nenhum interesse público
na designação. Segundo revelações divulgadas na imprensa, desde 1993
tinham um "relacionamento íntimo" (para os simples mortais a denominação
é bem distinta). Levou-a a mais de duas dúzias de viagens
internacionais – algumas vezes de forma clandestina - , sem que ela
tenha tido qualquer atribuição administrativa. Nem vale a pena revelar
os detalhes sórdidos descritos por aqueles que acompanharam estas
viagens. Tudo foi pago pelo contribuinte. E a decoração stalinista do
escritório da presidência em São Paulo? Também foi efetuada com recursos
públicos. E, principalmente, as ações criminosas dos nomeados por Lula -
para agradar Rosemary – que produziram prejuízos ao Erário, além de
outros danos? Ele não é o principal responsável? Afinal, ao menos, não
perguntou as razões para tais nomeações?
Se isto é motivo de júbilo, ele pode se orgulhar de ter sido o
primeiro presidente que, sem nenhum pudor, misturou assuntos pessoais
com os negócios de Estado em escala nunca vista no Brasil. E o mais
grave é que ele está ofendido com as revelações (parte delas,
registre-se: e os 120 telefonemas trocados entre ele e Rosemary?). Lula
sequer veio a público para apresentar alguma justificativa. Como se nós,
os cidadãos que pagamos com os impostos todas as mazelas realizadas
pelo ex-presidente, fossemos uns intrusos e ingratos, por estarmos
"invadindo a sua vida pessoal."
Hoje, são abundantes os indícios que ligam Lula a um conjunto de
escândalos. O que está faltando é o passo inicial que tem de ser dado
pelo Ministério Público Federal: a investigação das denúncias, cumprindo
sua atribuição constitucional. Ex-presidente, é bom que se registre,
não tem prerrogativa de estar acima da lei. Em um Estado Democrático de
Direito ninguém tem este privilégio, obviamente. Portanto, a palavra
agora está com o Ministério Público Federal.
*Marco Antonio Villa é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos
Fonte: O Globo
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