Candidato a presidir Câmara é acusado de enriquecimento ilícito
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| O líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN) Agência Câmara |
A sucessão de denúncias contra o líder do PMDB na Câmara, Henrique
Eduardo Alves (RN), surgidas no fim de semana, expõe um racha no
partido, na avaliação de políticos peemedebistas, e é fruto de “fogo
amigo”. Henrique Alves é candidato a presidir a Câmara dos Deputados a
partir de fevereiro. As denúncias, na avaliação desses peemedebistas,
também agradariam ao PT e ao grupo palaciano, que enxergam na fritura de
Henrique Alves a justificativa para romper o acordo de elegê-lo e
lançar um nome próprio — Arlindo Chinaglia (PT/SP) é o mais cotado —
para suceder a Marco Maia (PT/RS).
A denúncia que mais compromete Henrique Alves, publicada pelo jornal
“Folha de S.Paulo”, revela que parte das emendas parlamentares do líder
do PMDB beneficiou Aluizio Dutra de Almeida, tesoureiro do partido no
Rio Grande do Norte e assessor do deputado na Câmara desde 1998. Almeida
é sócio da Bonacci Engenharia e Comércio, empresa contratada para fazer
pelo menos três obras no estado nordestino financiadas por emendas do
líder do PMDB.
Em 2009, o deputado destinou recursos do Ministério do Turismo para a
construção de praça em Campo Grande (RN), no valor de R$ 200 mil. Do
Ministério das Cidades, Henrique Alves mandou R$ 192 mil para São
Gonçalo do Amarante e R$ 137 mil para Brejinhos, ambos para pavimentação
de ruas. Essas obras foram tocadas pela Bonacci. Almeida disse à
“Folha” que a empresa participou de licitações e ganhou.
Já a revista "Veja" informou que Henrique Alves alugou carros da
empresa Global Transportes, do Distrito Federal, que teria por trás o
ex-assessor do PMDB César Cunha. A empresa está registrada no nome da
ex-vendedora de tapetes Viviane dos Santos, que disse ter emprestado o
nome à tia Kelen Gomes, responsável por emitir as notas para o gabinete
do líder do PMDB.
“Aí tem fogo, e é fogo amigo”
“Aí tem fogo, e é fogo amigo”
Em nota, a assessoria de imprensa do líder informa que, apesar de a
Global Transporte estar legalmente constituída e haver apresentado toda a
documentação exigida para fornecer o serviço, o deputado determinou “a
apuração rigorosa da existência de possíveis irregularidades”.
— Quem era para estar apanhando era Renan (Calheiros, que disputa a
presidência do Senado), mas, de repente, o mundo de Henrique é que
desabou. Aí tem fogo, e é fogo amigo. Quem ia saber de emendas e locação
de carros de Henrique? Geddel e Henrique nunca se bicaram, e ele, como
ministro, sabia de todo o trâmite de emendas do PMDB — avalia um dos
interlocutores de Henrique Alves, relacionando as denúncias à guerra que
se trava no partido pela liderança, envolvendo o deputado Eduardo Cunha
(PMDB/RJ), com apoio do grupo de Geddel Vieira Lima.
— O PMDB está unido no mesmo propósito e não faria fogo amigo contra o
Henrique. O mais provável é que seja fogo contra o PMDB. Talvez de quem
não quer o PMDB no comando das duas Casas — afirmou Eduardo Cunha,
jogando a suspeita para o PT, onde setores do partido nunca esconderam
uma articulação para lançar Chinaglia.
O jornal “O Estado de S.Paulo” também divulgou que Henrique Alves
estaria protelando, com recursos, investigação em curso no Ministério
Público Federal que apura denúncia de enriquecimento ilícito numa ação
de improbidade administrativa. Segundo o Ministério Público, o deputado
manteve ilegalmente dinheiro fora do país. O jornal informa que há dois
meses Henrique Alves recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região e
conseguiu postergar uma decisão sobre a quebra de seus sigilos bancário
e fiscal e de suas empresas. O processo corre em segredo de Justiça na
16ª Vara Federal, em Brasília.
No processo de separação judicial do deputado, sua ex-mulher Mônica
Infante de Azambuja o acusou de manter US$ 15 milhões no exterior. Em
2002, quando essa acusação foi publicada, Henrique Alves perdeu o cargo
de vice na chapa do tucano José Serra, que perdeu a eleição presidencial
para o petista Luiz Inácio Lula da Silva.
— Há um embate interno no PMDB, e as denúncias envolvem pessoas de
dentro da liderança do partido. Eu venho justamente para mudar essas
práticas. Quem está no dia a dia com ele é quem sabe disso tudo — diz
Júlio Delgado, candidato do PSB contra Henrique Alves.
Temer-Alves x Geddel-Cunha
Na essência, o motivo da divisão que colocou de um lado o
vice-presidente Michel Temer e Henrique Eduardo Alves e, do outro,
Geddel e Eduardo Cunha é uma divergência sobre o tipo de relação que a
bancada do partido na Câmara deve manter com o governo da presidente
Dilma Rousseff. Cunha e Geddel tentam ganhar espaço entre a grande
maioria de deputados insatisfeitos, que perderam cargos e verbas
federais desde o fim do governo Lula.
Após Henrique Alves avisar Eduardo Cunha, em uma dura conversa na
liderança do PMDB da Câmara, de que não iria apoiá-lo na disputa pelo
posto de líder — pois havia restrições do Planalto a seu nome —, o
deputado fluminense aproximou-se dos irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima.
Ao longo dos dois primeiros anos da atual legislatura, Henrique Alves,
que tinha Cunha como aliado, afirmou reiteradas vezes que os Vieira Lima
eram os maiores críticos internos de sua gestão na liderança.
Eduardo Cunha e seu grupo não perdoam Henrique Alves pelo apoio nada
velado a Sandro Mabel (GO), considerado cristão novo no partido. Já
haveria um acordo: se o outro candidato Osmar Terra (RS) for para o
segundo turno, Eduardo Cunha o apoia, e vice-versa, para derrotar
Henrique Eduardo Alves.
— O problema de Henrique é político. Ele se isolou de quem sempre foi
dele. Ele, Eduardo Cunha e Michel viveram nestes três anos em regime de
comunhão de bens e, de repente, ele cospe no prato em que comeu? E o
problema não é discutir se as denúncias são plantação, é discutir o
mérito das denúncias — diz um dos interlocutores do grupo de Eduardo
Cunha.
Fonte: O Globo - Por Celso Pereira e Luiza Damé

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