De segunda a sexta-feira um agente policial sai de sua residência em Águas Claras às 6 horas da manhã. Ele está ao volante de uma Hillux toda preta. É o carro oficial à disposição do diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal. Sem maiores explicações, as placas são costumeiramente trocadas.
Pouco antes das 6h20, o carro estaciona em uma quadra econômica do Setor Sudoeste. Lá embarca o delegado Jorge Xavier, que assumiu o comando da polícia há pouco mais de dois meses. Ele, como todo servidor público, é pago para cumprir a lei.
Mas, surpresa. A Hillux imponente não se dirige para o Complexo da Polícia Civil, do outro lado da rua do Sudoeste. Ao contrário, segue velozmente pelo Eixo Monumental, manobra pelo viaduto do Setor Hoteleiro, pega a Avenida W-3 Norte e só para ao chegar a um bloco residencial da 111 Norte, onde reside a ex-esposa do delegado. Em outros dias, o percurso é alterado, via Estrada Parque Indústria e Abastecimento.
Na Super Quadra 111 Norte, outra surpresa - e um crime caracterizado como de improbidade administrativa. Três filhos do delegado Jorge Xavier entram no carro, que segue para duas escolas particulares. Só então o agente, agora pisando mais suavemente no acelerador, dirige a Hillux para o estacionamento privativo do diretor no Complexo da Polícia Civil.
São quase oito horas. O dia de trabalho do agente, que cumpre ordens do superior, começou às 6h. O do diretor será precedido de um café da manhã reforçado, em gabinete com ar-condicionado.
Um DVD com as imagens da Hillux, mostrando Xavier pegando as crianças, os percursos e as escolas onde estudam seus filhos chegou à redação de Notibras trazidas em envelope da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Veio envolvido em serragem, para supostamente evitar que a peça fosse danificada.
Políticos, jornalistas e policiais assistiram a fita na companhia de representantes de Notibras. A conclusão foi unânime. Não se trata de montagem. E a remessa foi atribuída ao ex-cabo Patrício, presidente da Câmara Legislativa, que está em guerra aberta contra o diretor da Polícia Civil.
No mesmo envelope, um cartão com a marca d’água da Presidência da Câmara Legislativa faz algumas advertências. Diz, por exemplo, que o delegado Xavier comete crime de improbidade administrativa, podendo ser punido com a perda do cargo mediante exoneração sumária. E lembra o decreto 32.880/11, assinado pelo governador Agnelo Queiroz, com novas regras para o uso de veículos oficiais.
Se a determinação do Palácio do Buriti for levada ao pé da letra, é provável que o delegado Jorge Xavier seja alvo de sindicância, por violação administrativa e criminal. Ele também estará sujeito a ação do Ministério Público para ressarcimento das despesas decorrentes dos deslocamentos para uso de veículo oficial em benefício próprio.
Um advogado que atua na área do Direito Público entende que a perda da função é indiscutível. Mas ele pondera que o diretor-geral da Polícia Civil poderá se livrar da ação penal criminal se decidir se antecipar e pagar todos os custos arbitrados por uma eventual comissão de sindicância. Caso contrário, Xavier também poderá ter seus direitos políticos cassados por um prazo mínimo de oito anos.
Ninguém acredita que o governador Agnelo Queiroz tome uma decisão açodada sobre o episódio. Até porque, coincidência ou não, o secretário de Segurança Pública Sandro Avelar está em missão oficial ao exterior.
A única certeza é que o delegado Jorge Xavier infringiu a lei. E atropelou todas as orientações oficiais do Governo do Distrito Federal. Um decreto do governador proíbe o uso de carros oficiais em atividades particulares, de lazer, recreação ou para o transporte de familiares do servidor, bem como de pessoas estranhas ao serviço público.
Quando assinou o decreto, Agnelo declarou que estava dando transparência à coisa pública. E que não permitiria descaminhos. Há dois dias, ao ser informado que havia uma campanha patrocinada pelo ex-cabo Patrício para desestabilizá-lo, o diretor-geral da Polícia Civil decidiu criar um grande escudo para se defender do presidente da Câmara Legislativa. Porém, ao que parece, ele não chegou a fazer o dever de casa sobre sua própria conduta.
Fonte: Notibras

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